AINDA SOLTEIRO

 E hoje, depois de nunca mais me casar, estou aqui entrando em férias literárias. Prometi a mim mesmo, que só escrevo ano que vem e se eu estiver vivo até lá. Não estou correndo perigo, não, nenhum. É que eu sei que para morrer basta estar vivo. E não adianta dizermos que não temos medo algum. Mas eu vi minha mãe morrer. E olha que ela já tinha noventa e um anos de idade. E estava de verdade adoentada. Quem mais cuidou dela nesta hora foram meus irmãos mais novos. E está próximo o aniversário de seis anos da morte dela.

Ao chegar do enterro dela, que ocorreu em minha terra natal, eu disse à minha irmã caçula, que é quem me trouxe de lá até aqui:

- Eu a adorava.

Não tive nem gosto de me corrigir. O certo seria eu dizer:

- Eu a amava muito.

E era para mim que ela cantava a canção do filho pródigo. Que era uma canção que o Padre Fábio de Melo quem cantava, salvo engano meu.

Eu trabalhei a vida inteira em outras cidades do interior do Brasil. E não fiquei rico, donde eu tiro a conclusão:

- Ninguém fica rico no trabalho. Fica-se remediado.

E eu não estou numa situação desconfortável na vida. Graças a Deus, não.

O que ganho dá para o meu sustento, e ainda dá para os remédios, cigarros e livros, e alimentação. Eu não gosto nada da expressão que vou usar:

- "Estou idoso."

E que Deus me abençoe. E que Deus nos abençoe.

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