FAZER A VIDA, DEPOIS ESCREVER

Primeiro fiz minha vida. Não sem sofrimento. Quando alguém me ouve dizer isto, pensa logo que é choro meu. Mas aos trancos e barrancos e com a ajuda dos meus aqui estou. E agora estou escrevendo. Realmente eu tinha em mim a escrita. Pretendia que ela fosse literária. Mas, agora, aqui, eu não sei se posso chamá-la literária. Mas chamo-a de literária. Pois uma vez um professor de Letras ao me ler me disse que eu era novo nas letras. Agradeci e não desisti, continuo escrevendo.

Hoje eu me lembrei de uma coisa. Um dia eu contei a uma mulher do povo que deviam oferecer a ela, mil rosas. E ela me disse:

- E essas mil rosas sairiam machucadas.

E isso é simples de entender. Geralmente se dá rosas à namorada. Mil rosas a ela, ela que já sofrera tanto...

Eu fui cumprimentado por um oficial da FAB, eu que servi lá e saí quando era aluno. Me emocionei com ele. Gentil e educado ele foi para comigo. E também me lembrei que a Lei da Anistia já me favorecera, através de meu pai. Hoje sou um pensionista. E vivo em paz.

Agora viver em paz eu acho que mereço. Pois antes de virar pensionista, trabalhei, repito, em seis empregos. Sempre fui um cara comum. E espero que quem me ler, não pense que o fato de eu estar escrevendo me faz melhor do que alguém. E aproveito a oportunidade para dizer que às vezes um ato meu parece um erro. Por exemplo, eu disse que sou privilegiado. Disse isso a uma pessoa. Já que hoje é o dia das oportunidades, digo também que isso foi um erro. Quem vê a casa em que moro, pensa que me referi a isso. Ninguém mora bem quando morre alguém seu. Não há conforto que cubra isso. É que moro na casa de minha mãe. E minha mãe morreu. Há uns cinco anos. O desconforto de minha alma é grande. Por isso é que eu evito falar desta casa. O que eu quis dizer de privilégio se referia aos meus livros. Os meus livros me auxiliam muito e já não dói tanto a perda de minha mãe. E eu tenho ainda hoje uma doméstica que me consolou:

- Olha seu guarda-roupa, você não tem culpa.

E Deus seja louvado. E tenho dito.

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