FUGINDO DO NADA

 Nós vamos na escrita conforme o que nos acontece no dia em que escrevemos. Mais explicadamente, conforme o que sentimos e pensamos sobre as coisas do dia. Hoje ainda não me aconteceu nada. Eu não vejo maneira de escrever sobre o nada. Se eu fosse escrever sobre o nada, minhas palavras ficariam mudas.

Então venho aqui e escrevo sobre o que me move na escrita. Que é palavras puxam palavras. O velho modelo de inspiração que tomei e funciona em mim perfeitamente. E creio que cada autor tem o seu modo de se inspirarar. E na minha crença lá vai também que depois da inspiração vem a transpiração. Claro, que para mim, escrever é trabalhar.

Passei boa parte da vida em escritórios, aprendendo a trabalhar. Que nunca sabemos em definitivo as coisas. E conversando com um amigo, ele me perguntou:

- Tem escrito  ultimamente?

- Sim.

- Então me mostre.

Mostrei e perguntei a ele, depois que ele leu o que escrevi:

- E você?

- Tenho tentado, mas tem saído coisas infantis.

Eu o elogiei. E me expliquei. É que o menino interior dele estava vivo. Ele sorriu. Eu me contentei. E as coisas são assim mesmo. Nosso poeta maior também dizia que tinha um menino interior bem vivo. E o nosso poeta maior é nada mais nada menos que Carlos Drummond de Andrade.

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